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Kayapó Mebêngôkré: “nossa cultura é a natureza”

16//07/2018 | Por Gisele Motta

Marcelo Santos Braga

A manhã começou com os Krahô passando o bastão para os Kayapós que ficaram a frente da programação neste dia de segunda feira (16/07) da XII Aldeia Multiétnica. Enfeitando as crianças com penas, os Krahô apresentaram mais uma das etapas da sua festa das crianças. Os Kayapós, por sua vez, iniciaram o dia com danças e cantos, e às 9h fizeram a roda de conversa: “História, cosmologia, saberes e fazeres do povo Kayapó”. Thiago Bengoti e Paulinho Paiakan, lideranças do povo Kayapó, falaram sobre o significado das apresentações que tinham realizado. 

Os indígenas apresentaram cantos de duas festas, a Bemp e a Takak, ambas cerimônias de nomeação masculina. “Esse é o momento em que as crianças passam para a fase adulta, é também o batizado delas. Bemp significa respeito, quem ganha esse nome não entra em brigas, respeita a todos e é respeitado, não fala mal das pessoas. Para cada nome, temos uma festa”, explica Thiago. 

Paulinho Paiakan é uma liderança indígena que esteve presente nos processos de elaboração da constituição de 1988, que através dos artigos 231 e 232 da Constituição Federal, garantem a autonomia indígena. “Vocês precisam não só ver o nosso ritmo e movimento, mas entender o significado de nossas festas. Temos mais de 100 rituais para comemorar, celebrar, lamentar. Rituais de plantio, para o clima, para colheita, para lamentos... Nossas músicas e danças não falam de amor, de quem está apaixonado, de sentimentos, mas falam da natureza. Nossa cultura é a natureza. Nosso deus é o céu, o rio, o vento, as árvores, os pássaros, a realidade. Essa é nossa verdade”, diz Paulinho. 

Paiakan relembrou as principais destruições da natureza que ele presenciou desde que começou a sair de sua aldeia, como a construção da Transamazônica e da Hidrelétrica de Kararaó, atual Belo Monte.  Quando se deu conta desse contexto, viu que precisava usar o conhecimento e a tradição para agir politicamente. “Quando começaram a discutir a Constituição de 1988, eu estava lá. Todo esse tempo nós estamos sendo ameaçados por políticos e por governos. E eu demorei para entender quem é o político e quem é o governo. E são a mesma coisa. O político é aquele empresário, que tem projetos multinacionais, que tem e querem muito dinheiro. É aquele empresário que pega nossas riquezas e leva para fora do país. Esses são nossos políticos e nosso governo”.

Os grupos kayapó autodenominam-se mebengokré, ou seja, “povo do buraco d´água” referindo-se aos rios Tocantins e Araguaia. Com a aproximação dos invasores – como chamam os colonizadores – os grupos começaram a migrar, e a travessia desses rios foi a separação do grupo ancestral. “Quando chegamos no Mato Grosso, começamos a pensar a avançar mais no território, mas já não podíamos mais. Começamos, então, a nos defender, a defender o território. O indígena sai da aldeia, encontra algum estranho, ele ataca, mata, volta para a aldeia, e depois sai para outra direção. Ai encontra o inimigo, mata, volta para a tribo. Assim que nós paramos para defender nosso território e vai passando o tempo... Quando começou a criar o projeto de demarcação e nós, o povo Kayapó tentávamos defender nosso território de madeireira, garimpeiro e o que chamávamos de gateiro... Eu lutei também para demarcar a terra Kayapó porque só assim conseguimos garantir nossos direitos. A luta, então, é essa, não nos tornamos migrantes a toa. Somos migrantes por causa de ameaça, até que paramos. Deixamos um pouco de Kayapó no Mato Grosso e outra parte foi para o Pará”. 

Paulinho diz que só a partir dos anos 1980, o povo Kayapó começou a ter interesse de falar português, de aprender a ler e a escrever. “Muitos de nossos parentes, sem saber português, foram extintos. Não sabem gritar socorro, não conseguem pedir ajuda. Para as pessoas entenderem o risco que estamos passando, as violências que sofremos, tivemos que aprender”, diz Paulinho. 

Segundo ele, muito se questiona porque o indígena quer investir em graduações. Mas isso se justifica porque só assim o indígena consegue ser valorizado e se comunicar. Afinal, o homem branco tem muito menos acesso à cultura indígena, enquanto a cultura branca já permeia as aldeias. “Precisamos continuar para que nós mesmos índios tenhamos nossos médicos, nossos advogados, nossos antropólogos e todas essas profissões que já estão na nossa cultura, mas de outra forma. Nós precisamos sim dessa formação, porque o mundo se transformou. Antes de chegar o invasor, nós sabíamos tratar nossas doenças, temos nossos especialistas. Agora, com novas doenças, precisamos de novas formações. Nós estamos preparando nossos jovens para o ensino superior, estamos mandando eles para que nós tenhamos nossos direitos garantidos, para que nós não soframos tanto na mão dos outros”.