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Xavante: os oníricos

18//07/2018 | Por Gisele Motta

Marcelo Santos Braga

Os Xavante se auto-denominam A’wê Uptabi - o povo verdadeiro. Em sua cultura, a verdade está na interseção entre sonho e realidade. Suas decisões, sua cosmologia, seus saberes e suas tecnologias são extremamente intuitivos e relacionados aos seus subconscientes. Eles usam os sonhos para decidir onde caçar, tendo uma pessoa que se prepara espiritualmente só para essa função. Os homens se reúnem todos os dias, no amanhecer e no entardecer, para trocar sonhos, experiências cotidianas e estratégias de ação. Também existem ervas e rituais para provocar sonhos e deixar essa conexão com o mundo extraterreno e intraterreno mais intensa. Para os Xavante, ter que escolher entre sonho e realidade é uma falsa questão.

Nesta terça-feira (17/07), o dia foi dedicado a esta etnia. Com a mediação de Alexandre Lemos, indigenista que os acompanha há seis anos, tivemos uma roda de prosa chamada “História, cosmologia, saberes e fazeres do povo Xavante”, às 9h, no Centro de Saberes da Aldeia Multiétnica. 

Élcio, Xavante da aldeia Ripá, T.I. Pimentel Barbosa (MT), iniciou a conversa falando sobre a alimentação. Expressando-se em seu idioma nativo, sua fala foi traduzida por Alexandre: “sofremos uma grande pressão do mercado da soja. A nossa área tem 334 mil hectares de cerrado bem preservado, mas ao redor é só monocultura. E o veneno usado nessa produção é uma grande preocupação, percebemos a interferência na saúde das crianças. Seja porque muitas famílias já se alimentam com produtos industriais, seja por conta da transmissão do veneno por meio do ar ou de lençóis freáticos. As mulheres são muito importantes na manutenção da saúde, através da soberania alimentar, da valorização ou resgate de alimentos tradicionais”. Outra questão colocada pelo indígena é a das sementes crioulas, ou nativas. A cultura do não-indígena traz uma grande pressão na tentativa de acabar com essas sementes, em detrimento das sementes transgênicas. Foi apresentado um teaser do longa-metragem documentário chamado Semente da Terra – soberania de um povo, que está sendo construído junto à jovens cineastas indígenas pelo projeto Raiz das Imagens e será lançado no final do ano. 

Isidoro, da mesma aldeia do Mato Grosso, contribuiu falando sobre o processo de formação dos homens Xavante. A sociedade Xavante é dividida em dois clãs: o Öwawe (Rio Grande) e o Poredzaõnõ (Girino), e em qualquer tipo de atividade existe uma rivalidade entre esses dois clãs. O processo de educação tradicional é uma mistura entre a educação familiar e a educação dada pelos padrinhos, dentro da casa de reclusão, onde os meninos entram por volta dos 15 anos e ficam por quatro anos. Cada clã tem suas próprias tradições nessa formação, que inclui caçar, pescar, defender o território, aprender a ser um bom homem. Ali, também serão definidas as figuras que irão trabalhar para a harmonia na sociedade. Existe, por exemplo, a figura do Pahöri’wa, que significa adorador do sol, e o Tébé, o adorador da lua. Outra figura importantíssima é o Dono da Caça, o homem que será formado para sonhar onde está a caça e orientar todo o grupo. Ao longo da reclusão os padrinhos observam os meninos e suas aptidões e vão delegando as funções que eles exercerão até a velhice.   

Guardiões da Serra

Alexandre acredita que certas etnias têm uma grande responsabilidade de manter a energia espiritual em pontos de força no Brasil, como é a Serra do Roncador, local sagrado no qual os Xavante habitam. “Às vezes as pessoas falam de forma espantada sobre a realidade extraterrestre ou intraterrena, mas essa comunidade interage com tudo isso de uma forma bastante consciente dentro dos processos rituais. Eles trabalham tanto no sonho quanto na realidade, para trazer equilíbrio e harmonia”, explica. 

Isidoro falou um pouco sobre como funcionam esses processos de proteção. A Festa do Waiwa é um dos rituais mais importantes, que acontece no mês de julho e agosto, e é um ritual de diplomacia com o mundo espiritual. Os homens sonham com os cantos, acordam, anotam esses cantos, e vão para a floresta cantar escondidos para fazer conexão com o mundo espiritual. Eles também se preparam para sonhar e conseguir encontrar objetos sagrados que servirão na festa. São alguns dias de ritual, no qual eles cantam dia e noite. Cada clã recebe seus próprios cantos por meio dos sonhos. Na preparação para a festa, os homens passam por um tempo de abstinência, tanto de comida quanto de contato sexual, e tomam pouca água. Esse processo ajuda a trazer equilíbrio entre o mundo material e não-material. 

 A roda foi finalizada com um banho de rio, quando foi apresentado um “ritual de bateção”, parte da Wanaridobe, a Festa dos Padrinhos. Os jovens homens que estão entrando em seu período de formação espiritual ficam de três a quatro dias dentro do rio, só saindo para comer e dormir, acampando em sua margem. Após esse momento, eles têm as orelhas perfuradas e usam pequenos pedaços trabalhados de madeira. A depender das necessidades de cada um, mudam a madeira, que, em contato com o corpo, tem ação fitoterápica e simbólica. 

Na volta do banho de rio, na parte da tarde, a conversa continuou. Foram apresentadas danças e cantos rituais, além da confecção da cestaria tradicional, feita por mulheres, e das pulseiras, feitas pelos homens. O tsadaré, bolo feito de uma espécie de milho tradicional, foi compartilhado com o público. No final do dia, mais dança para celebrar a união dos parentes e dos presentes.