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A força das mulheres indígenas

08//08/2019 | Por Marina Almeida

“Estão dizendo que sou mãe da natureza. Nasci no mato. Eu cuido da minha floresta, lá tem comida boa, tem fruto, tem caça, tem açaí, castanha que a gente come. Vocês também comem, então para que vai destruir? Isso que faz a gente viver bem, vai fazer os nossos netos viverem bem também”, diz Tuíre Kayapó Mebēngôkrē numa das rodas de conversa da Aldeia Multiétnica. A fala forte da indígena que se tornou conhecida por sua luta pela floresta mostra a força das mulheres que estiveram presentes nesta edição do evento. 

Tuíre afirma sua cultura e sua luta como uma mensagem que espera ser espalhada pelo Brasil. “Aqui vocês estão vendo uma Kayapó de verdade. Vocês veem minha pintura, meu corte de cabelo, o jenipapo na minha mão. Não uso calça, não uso batom. Sou Kayapó! Vocês que estão aqui tem que fazer igual. Ensinar pros seus netos. Não ir para a cidade e voltar fraco”, diz para outras indígenas presentes na roda de conversa entre mulheres. 

Ela também afirma a importância da luta por seus direitos: “eu não falo português, mas estou aqui para lutar pela floresta. Vocês que sabem ler, escrever tem que fazer documento para levar para Brasília para tirar esse governo. Não sei escrever, senão já estaria lá. Eles estão tirando nossas terras e, se a gente não se mexer, sai esse governo e entra outro ruim igual no lugar.” Tuíre se dirige a indígenas e não-indígenas para seu recado final: “Nós somos muitos bons e as pessoas ruins são poucas. Por que não se juntar para mudar isso?” 

Liderança

“Eu sou mulher, mas eu luto assim... Um pouquinho, né?”, diz Madalena Krahô em sua fala modesta. A conversa com a cacica, porém, vai revelando a força do trabalho da líder da aldeia Forno Velho, em Tocantins. Ela conta que conseguiu que construíssem uma ponte de concreto para melhorar o acesso ao território e uma escola de Ensino Médio na aldeia, pois o transporte até outra escola era ruim e perigoso. “Hoje tem escola, rádio, motor para puxar água. A pessoa chega e me procura para as coisa, então eu tô ficando. A Funai, quando era boa, mandava dinheiro e eu fazia as compra. Não sei disso aqui – ela aponta para minhas anotações – mas as conta eu sei”. Ela ainda explica que, apesar do pouco estudo, aprendeu bastante: “de primeiro, eu não sei língua de vocês, mas fui na escola um pouquinho e um pouquinho eu aprendi. Mas dinheiro eu sei o tanto...”

E o que Madalena espera do futuro? “Eu falo pros netos: pode andar no estudo, mas não esquece a cultura dos bisavô. Tem que saber a cantoria de nós, saber correr com tora, caçá, botá roça...”

Ela conta que no cotidiano da aldeia, além de administrar os recursos e negociar melhorias com o governo, trabalha na roça e organiza o trabalho da comunidade. “No tempo da roça, mando um ajudá o outro... A plantar arroz, mandioca, milho, depois ajuda outro... Compro as coisa em Itacajá... [a cidade mais próxima]. Agora tem carro, antigamente ia de pé, era um dia de pé para chegar. Agora ninguém quer andá de pé, esforço pesado. Eu ia de pé, eu sofreu...”

Desafios

“Ser mulher indígena é mais difícil. A gente sofre mais preconceito, não consegue trabalhar, não têm muitas formadas... Para o homem indígena já é mais fácil um pouco”, reconhece Maxi Huni Kuin. Isso, além dos grandes desafios que são comuns a todos: “os indígenas são discriminados, ficamos meio esquecidos... Minha avó, quando eu era criança, não se preocupava com nada. Hoje a gente tem que lutar pelo território. Por isso falo pros meus filhos: estudem para lutar pelos nossos direitos”. Maxi ainda conta que foi na Aldeia multiétnica que viu a primeira mulher cacica: “nunca tinha visto, não sabia que existia! Fiquei feliz de conhecer”.

Na linha de frente da luta pela preservação de sua cultura, as mulheres buscam formas de garantir que o contato com o mundo não-indígena não afaste as crianças de suas tradições. “A estratégia das mulheres Maxakali é não deixar as crianças aprenderem português antes dos 12 anos, como forma de preservar sua cultura. Hoje fico muito feliz de ver um fortalecimento espiritual e cultural entre os Maxakali”, conta Cristina Takuá.

Um tema ainda pouco abordado é o da violência. “Existe violência contra a mulher indígena em muitas comunidades. É preciso reconhecer que nós, mulheres indígenas, com nossas capacidades e potenciais, não somos parte de um povo, nós somos um povo. Se um homem agride e viola uma menina ou uma mulher, ele agride seu povo”, diz Samantha Ro’otsitsina Xavante, ativista dos direitos indígenas.

Diante da diversidade de realidades e culturas dos 305 povos indígenas brasileiros, Tsitsina ressalta a importância do 1º Fórum de Mulheres Indígenas, que unificará as principais pautas das mulheres que vivem nas aldeias e cidades, e da 1ª Marcha de Mulheres Indígenas. “Nossa luta hoje não é mais com borduna, é com caneta e papel”.